Wednesday, December 20, 2006

Ânua

escoltado por abelhas africanas
o ano se despede

das intenções melíferas ficam:
- uma pedra no caminho
- um poema inacabado
- um barco furado
- um presente no escuro

e todos os sonhos de navegantes à deriva

pergunto aos jornais
sobre esperança
respondem-me com serena insensibilidade
a pedra no telhado de vidro,
a revolta das vísceras,
o enjôo dos dias,
a imparcialidade do relógio
em bocas de lixo e beijos na boca

mas insisto em ver
com os olhos dos sonhos

haverá novas horas
de um mesmo relógio
que à maneira dos esperançados
beijará o primeiro segundo
soletrando estrelas de um dia primeiro

e apesar das incontáveis picadas
da mordaz e histriônica colméia
reinventaremos o mel

Euza Noronha

http://corpusetanima.blogspot.com
...

1 comment:

Val Freitas said...

eu lembro sorrindo quando Lobita escrevia algo como "ah, eu não escrevo nada, não".
pois é. eu disse o contrário. muito boa seleção, Wilson. dona Loba Euza tem umas coisas inesquecíveis.